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quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O Poder Da Imagem: A Realidade Ficcionada



A célebre frase “Uma imagem vale mais do que mil palavras” diz tudo! Actualmente, a imagem não é só utilizada para entreter mas também para persuadir a audiência. O sucesso de qualquer produto ou serviço depende da campanha publicitária pois esta irá atrair (ou não) o público, dando-lhe a conhecer o que vende. Qualquer campanha publicitária deve captar a atenção e suscitar o interesse do público. Muitos publicitários utilizam as palavras “inovador” e “único” para caracterizarem o seu produto. Consequentemente, neste mundo cada vez mais mediático, as convenções morais e éticas tendem em perdem o seu valor. Em Portugal e não só, o programa “Big Brother” revolucionou o panorama televisivo graças à forma como explorava a nudez, o sexo e os conflitos interpessoais. Contudo, este conceito de “documentário da realidade” não é recente uma vez que ele foi inicialmente explorado no século XIX.  
Um Documentário, no sentido mais lato, envolve assuntos científicos ou educacionais, pode ser uma forma de jornalismo ou pode ser ainda utilizado como uma forma de propaganda política ou de expressão pessoal. Por outro lado, o Documentário Cinematográfico também explora a realidade, mas este não representa fidedignamente a realidade «tal como ela é». O documentário e o cinema de ficção são portanto uma representação parcial e subjectiva da realidade.
Para além da invenção da lâmpada e do fonógrafo (até àquela data não havia a possibilidade de reproduzir sons), entre outras, Thomas Edison inventou o “Kinetoscope”. Esta invenção iria revolucionar o mundo do cinema e obviamente da televisão.
Auguste e Louis Lumière, mais conhecidos por Irmãos Lumière, foram indiscutivelmente, os pioneiros do cinema, enquanto entretenimento de massas.
Estes realizadores exibiram os seus primeiros dez filmes ao público em 22 de Março de 1895 no “Salon Indien du Grand Café” em Paris. Esta apresentação histórica incluiu a exibição da curtíssima metragem (46 segundos) “Sortie des Usines Lumière à Lyon” (Saída dos trabalhadores da fábrica dos Lumière em Lyon). Cada filme tem 17 metros de comprimentos e a duração média de cada um deles é de aproximadamente 46 segundos. Estes filmes foram gravados graças à invenção de Léon Bouly: o “cinématographe”, que havia sido patenteado no ano anterior. Este aparelho, posteriormente aperfeiçoado pelos Irmãos Lumière, era capaz de gravar e de projectar imagens em movimento.
Em 1896,os irmãos Lumières viajam e visitam Bombaim, Londres e Nova York, levando consigo o “cinématographe”. No início do século XX, afirmam que o “cinema é uma invenção sem futuro”, mas felizmente estavam enganados. Posteriormente, abandonam o meio cinematográfico e dedicam-se à fotografia a cores.
A exibição pública dos seus filmes acerca de situações quotidianas marcou a História do Cinema. Contudo, os irmãos Lumière não são considerados os responsáveis pela criação do filme documental. Então quem é o responsável por esta invenção?
Robert Flaherty é considerado o “Pai do filme documental”. Nascido em 1884, Flaherty revolucionou o mundo do cinema e introduziu um novo género de filme: o filme documental. “Nanook of the North” (1922) é a prova disso. Este novo género foi imediatamente criticado por alguns críticos que alegavam que o filme continha cenas “encenadas”, isto é, os ditos “actores” representavam e não conseguiam agir com plena naturalidade. Em algumas das cenas, os “actores” não conseguiam ignorar a câmara e sorriam para a mesma, por exemplo. Flaherty riposta: “Por vezes, temos de mentir. Para captarmos a verdadeira essência de algo, é necessário distorce-lo[1]. Este filme baseia-se em factos reais e tentava reproduzir o quotidiano de uma família de esquimós que vivia num meio quase inóspito (nomeadamente em “Hudson Bay” na zona árctica do Quebec – Canadá).
            A partir de então surgiram outros documentários deste género tais como “Drifters” de Grierson lançado em 1929 ou “The Plow That Broke the Plains” de Pare Lorentz lançado em 1936.
            Antes do aparecimento do documentário enquanto forma de entretenimento, já existia outro género de documentário ou filme, o qual tinha como objectivo a propaganda política. Mas, nem todos utilizavam o filme de uma forma tão séria. Por exemplo, em 1918, Charlie Chaplin subsidiou e realizou um filme cómico intitulado “The Bond” acerca da Primeira Guerra Mundial. É necessário relembrar que nesta época o cinema era mudo, ou seja, o filme era composto essencialmente por imagens em movimento acompanhadas por alguém que tocava piano ou por música (numa fase posterior).
O desenvolvimento do Cinema Russo na década de 1920 permitiu a divulgação de ideais comunistas. Embora, o filme “The Battleship Potemkin” do russo Eisenstein promova estes ideais, este é considerado uma das obras-primas do cinema. Eisenstein e Dziga Vertov são dois dos maiores realizadores desta época.
            Durante a Segunda Guerra Mundial, o documentário era utilizado para fazer propaganda política, divulgando deste modo ideologias políticas. O documentário era assim um valioso trunfo, quer por parte dos Nazis, quer por parte dos países aliados, dado que este era utilizado para persuadir os seus cidadãos a seguir uma determinada ideologia. Hitler conseguiu despoletar o ódio da população alemã tornando-a xenófoba em relação aos judeus, culpabilizando-os pela falta de emprego e pela instabilidade económica-social vivida. Ao vangloriar os alemães, tratando-os pela “Raça Pura”, deu-lhes a entender que estes podiam exterminar os seguidores de Judas, o delator de Jesus. Este episódio lamentável da História demonstra a forma como a hábil retórica utilizada por Hitler, na sua campanha nazista, influenciou uma nação.
Entre 1930 e 1940, os grandes ditadores dos regimes totalitários utilizaram o seu poder social para divulgar os seus ideais, censurando, perseguindo e assassinado todos aqueles que se opunham a este regime. Esta foi a “Época Dourada (e sangrenta) da Propaganda”. Em 1934, Leni Riefenstahl, um realizador que trabalhava para a Alemanha Nazi, realizou o melhor filme de propaganda de sempre “Triumph of the Will”. Este filme comissionado por Hitler documentava a reunião do partido nazi em Nuremberga.
            Filmes como “Why We Fight” de Frank Capra (divulgado pelos Estados Unidos entre 1942 e 1945) e “London Can Take It” (divulgado pelo Reino Unido em 1940) foram concebidos para encorajar o povo a enfrentar o inimigo ariano. O documentário ao reunir a força das palavras, a sumptuosidade da imagem e a componente “realidade”, embora ficcionada, torna-o num género impar.
Os documentários designados por “Cinéma Vérité” ganham notoriedade nos anos 60 do século XX. Este género de documentário privilegia a relação informal entre a câmara e o indivíduo. Pretende-se assim que o indivíduo aja com naturalidade, como se não estivessem câmaras à sua volta. A televisão foi um importante meio de difusão deste género através de programas tais como “Harvest of Shame”da CBS (1960), o qual possuía um objectivo essencialmente jornalístico, ou “Civil War” de Ken Burnss (1990) que possuía um objectivo mais educacional. “Cinema Vérité” é um termo semelhante a “Kino-Pravda”. Esta designação atribuída por Jean Rouch servia para designar a criação de Vertov: “Kino Pravda” (em Russo) significa “Cinema Vérité”, em Francês. Este género transmitia a ideia de “realidade” através da justaposição de imagens.
            Posteriormente, o “Cinema Vérité” deu origem ao conceito de “Reality TV”. Os canais de televisão criaram então os populares e rentáveis “Reality Shows” tais como:The Real World” (exibido pela MTV), “Survivor” ou “Big-Brother”. Nos “Reality Shows” os “actores” que não passam de pessoas comuns (sem qualquer formação profissional na área da representação) representam cenas previamente estipuladas, e em seguida a “realidade” é filmada. Embora o termo “Reality Television” só apareça em 2000, este género já existia desde dos primeiros anos da Televisão. Documentários e programas não ficcionais tais como as notícias e os programas desportivos não são classificados como “ Reality Shows”.
            Em 1948, estreia o programa “Candid Camera” (inspirado no programa de rádio “Candid Microphone” de 1947). O objectivo deste programa era pregar partidas a pessoas comuns, sem que estas soubessem que estavam a participar num programa de televisão. Posteriormente, este género de programas começou a ganhar audiência e em seguida passou a ocupar o horário nobre da televisão. Ao longo do tempo, estes programas começaram a ganhar outros contornos: os participantes deixavam de ser surpreendidos e começavam a encenar as cenas para que a “realidade” fosse mais apelativa. A palavra “controvérsia” começou a fazer parte destes programas.
Em alguns “talk shows”, nomeadamente “The Jerry Springer Show”, os convidados expunham a sua vida pessoal (os episódios mais dramáticos) o que poderia originar conflitos entre eles e, por outro lado, “agarrava” o espectador ao sofá. “Lavar a roupa suja em público” passou a ser o lema destes novos programas.
Os participantes dos aclamados “Reality Shows” podem tornar-se em celebridades nacionais, embora esta fama seja bastante efémera. Alguns participantes destes programas podem eventualmente iniciar uma nova carreira: a ex-participante do
Laguna Beach: The Real Orange County”, Kristin Cavallari tornou-se numa apresentadora e actriz, por exemplo.
            Em suma, quando os documentários da vida “real” surgiram, o público em geral desenvolveu um certo interesse não só em relação à vida das celebridades mas também em relação ao quotidiano das pessoas desconhecidas. Este frenesim, em torno do que aparenta ser real enriquece as estações televisivas e prende o telespectador ao ecrã. Para muitos críticos, este tipo de programas promove a imbecilidade, a ignorância, a hipocrisia e o conflito. Alegam ainda que a sociedade consumista em que vivemos privilegia o produto de “fácil digestão”, isto é, os programas que não apelam ao raciocínio. Esta sociedade tende a não questionar a credibilidade e a veracidade daquilo que vê ou ouve. Os “mexericos” e os “estereótipos” são facilmente apreendidos e, por vezes, são os responsáveis pela discriminação e pelos juízos de valor despropositados que ainda persistem na nossa sociedade. Actualmente já existem documentários que abordam temas controversos como a droga ou o vício do jogo como o reality show intitulado “Addiction” (Vício) que acompanha o percurso penoso dos participantes rumo a uma vida mais equilibrada. A variedade de programas que dizem retratar a realidade é vasta e os prémios finais (para além do famoso cheque com uma quantia avultada) variam igualmente: o vencedor de uma série (cuja duração média é de 3meses) poderá obter um emprego numa empresa prestigiada, casar com um milionário, obter uma cirurgia plástica etc. Noutros programas, o candidato seleccionado para um dos episódios obtém uma remodelação da casa, do carro ou do guarda-roupa, por exemplo.
Mark Burnett, o próprio criador do programa “Survivor” admite que a realidade do seu “reality show” é manipulada pelos seus produtores e que, na verdade, conta histórias, isto é, o seu programa não dá a conhecer nenhuma realidade nua e crua (“I tell good stories. It really is not reality TV. It really is unscripted drama.”).
            A imagem é um dos componentes que torna este tipo de programas tão apelativo. Se a televisão não existisse, estes programas não teriam o mesmo impacto na sociedade. O outro factor responsável pelo sucesso dos “reality shows” é a imprevisibilidade da “realidade”, o que torna os concorrentes vulneráveis à mesma. Ao adicionarmos alguma intriga dentro de um grupo, apimentamos ainda mais a realidade. E assim obtemos a fórmula perfeita para conquistar a audiência!
 Nenhum documentário poderá dar conhecer verdadeiramente as experiências humanas, pois estas estão intrinsecamente ligadas ao indivíduo que as experimenta.
A imagem, por si só, não transmite emoções dado que esta depende das emoções daquele que a observa. Contudo, a imagem pode despertar emoções. Os documentários cujo objectivo é a reprodução da realidade não reproduzem a mesma na íntegra, reproduzem sim os “pontos altos” da mesma.
            Se tivéssemos o dom da omnipresença, estes programas fracassariam?

Sources:

28 de Novembro de 2008

[1] Citação original de Robert Flaherty:  "Sometimes you have to lie. One often has to distort a thing to catch its true spirit."

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